Baco Exu do Blues QVVJFA

Baco Exu do Blues expõe o medo de amar em ‘QVVJFA?’

Cadu Costa

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10 de maio de 2022

Recentemente, o rapper Baco Exu do Blues fez o lançamento do seu aclamado novo álbum ‘QVVJFA?’. “Quantas vezes você já foi amado?” é o sucessor de “Bluesman”, que foi premiado no festival de Cannes em 2019. O disco conta com a colaboração de Gloria Groove e Muse Maya, além da participação de Gal Costa e Vinícius de Moraes por meio de samples, trechos de Os Originais do Samba, Batatinha e áudios de Ravi Lobo (Rap Nova Era), de JF e Polêmico (Banda O Metrô) e de Leandro Ramos. E o que podemos dizer mais que já não foi dito por aí? Vem que o ULTRAVERSO te conta!

O protagonista

O baiano de Salvador, Diogo Moncorvo, nome verdadeiro de Baco Exu do Blues, sempre foi conhecido por unir relevância social a temas do cotidiano como amor, afeto e sexo. Por meio de suas canções, sempre questionou o significado das relações. E com isso, conquistou um grande número de fãs pela profundidade de suas letras aliadas a uma sonoridade estilosa com elementos de rap, blues, jazz e soul.

Os álbuns “Esú”, de 2017, e “Bluesman”, de 2018, o elevaram à posição de um artista de notório reconhecimento crítico e comercial. Sua sensibilidade negro-nordestina conquistou fama internacional quando o clipe de “Bluesman” venceu o festival de publicidade de Cannes, passando por cima dos americanos Beyoncé e Jay-Z. O aguardado álbum “Bacanal” segue arquivado mas em 2020, trancado em casa, lançou o EP “Não Tem Bacanal na Quarentena”.

O que Baco Exu do Blues nos apresenta em QVVJFA?

No entanto, o vigor dos discos iniciais retorna em ‘QVVJFA?, quando vemos um Baco mais maduro e com questões muito relevantes, mas sem querer definir soluções. O disco já abre com uma frase forte “Eu sinto tanta raiva que amar parece errado” na primeira faixa “Sinto Tanta Raiva”.

https://www.youtube.com/watch?v=9H195BElHZ4

Aliás, toda a narrativa do álbum é importante principalmente se a pergunta que dá nome ao disco for direcionada para as questões raciais. Em entrevista recente, Baco chegou a declarar que “era absurda a diferença das respostas das pessoas pretas das pessoas brancas quando se pergunta quantas vezes foi amado”.

Seja como for, as 12 músicas de QVVJFA? dialogam com o amor preto, com a questão de se amar mais, de ser mais confiante. Canções como “Dois Amores”, “20 Ligações” e “Mulheres Grandes” são destaques disso. “Samba em Paris”, com Glória Groove, e “Sei Partir, com Muse Maya, abordam romance, tesão e desprendimento como peças fundamentais da construção das relações contemporâneas.

Discutindo também a hipersexualização do corpo preto

Em “Autoestima”, Baco é direto: “Foram 25 anos pra eu me achar lindo / Sempre tive o mesmo rosto, a moda que mudou de gosto / E agora querem que eu entenda seu afeto repentino / Eu só tô tentando achar a autoestima que roubaram de mim“.

Com esses versos, não há dúvidas que o artista discute sobre o fortalecimento do estereótipo de beleza no homem negro que só aparece quando tem um corpo forte e definido como o de Baco agora. Lembrando que ele era gordinho há pouco tempo atrás mas quando descobriram que ele estava forte, criou-se uma nova imagem de hipersexualização do seu corpo preto.

https://www.youtube.com/watch?v=5Zj9aef2AEE

Tanto que em “Lágrimas”, com samples de Gal Costa, ele se questiona: “Tudo que me falam sobre esse tal de amor me assusta“. Gal aparece com fragmentos retirados de “Lágrimas Negras” (1974), música de Jorge Mautner gravada por ela. O restante de “QVVJFA?” segue a linha de amor e ódio como “Inimigos”, faixa com samples da música “Tenha Fé, Pois Amanhã um Lindo Dia Vai Nascer”, gravada pelo grupo Originais do Samba. Nela, há o confronto com o racismo em versos como “Atacaram meu povo primeiro/ Eu sou a resposta/ Seu novo inimigo” e a violência política em “Acham que me cercaram/ Mas não sinto o perigo/ Só cheiro de medo e de inimigos mortos“.

https://www.youtube.com/watch?v=IwRZP9V-gYE

Conclusão

A impressão é de que em QVVJFA? há um Baco ainda mais humanizado, com suas fragilidades e dores expostas, contando sua história. Ao final, tudo é sobre amor – ou sobre a falta dele. Em entrevista recente a Zeca Camargo, ele falou sobre o sentimento do disco:

A questão mais pura desse álbum é como o amor foi embranquecido com o tempo. A palavra amor e a forma como as pessoas colocaram essa palavra no mundo, ela exclui os negros pouco a pouco para o canto. A falta de representatividade em diversos setores muda o sentimento entre os pretos. Quando vamos ver isso em filmes, livros, novelas, publicidade, fazem questão de colocar que esse não é nosso lugar. Não é nosso rosto que vai ser o bom pai, bom marido, a boa mulher, qualquer coisa do tipo. Parece que não foi feito pra gente. Então, a proposta é criar uma nova forma de amar entre os nossos e realizar isso além dos nossos traumas e feridas que não foram criadas por nós“.

Por fim, o amor que Baco Exu do Blues canta em ‘QVVJFA?’ é importante demais pra galera preta. O afeto do homem preto e com o homem preto. O afeto com as mulheres pretas. O amor entre pessoas pretas. É como se o ódio fosse sim necessário pois ele movimenta as pessoas, mas o amor cura. E a falta dele dói.

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Enfim, ouça o novo álbum de Baco Exu do Blues, ‘QVVJFA?’

https://open.spotify.com/album/5HE9DhP8b3m3LmShTreEvq?si=534QLFI0Q4aGYoYnhdxKgA

Cadu Costa

Cadu Costa era um camisa 10 campeão do Vasco da Gama nos anos 80 até ser picado por uma aranha radioativa e assumir o manto do Homem-Aranha. Pra manter sua identidade secreta, resolveu ser um astro do rock e rodar o mundo. Hoje prefere ser somente um jornalista bêbado amante de animais que ouve Paulinho da Viola e chora pelos amores vividos. Até porque está ficando velho e esse mundo nem merece mais ser salvo.
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Créditos Galáticos: 4

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